Dólar como poupança: a armadilha do refúgio que não oferece refúgio

De acordo com o IPC do Bureau of Labor Statistics, o poder de compra do dólar diminuiu aproximadamente 83% entre 1975 e 2025.

Utilizar uma moeda forte como proteção para as economias é uma das tradições mais arraigadas na América Latina. Um costume que continua vigente mesmo quando o dólar, a moeda predominante, passa por um processo de desvalorização global. A tal ponto que,somente na Argentina, há mais de 200 bilhões de dólares guardados debaixo do colchão. Diante desse cenário, é importante compreender que acumular um dólar em cima do outro não só é insuficiente, como também é contraproducente.

De acordo com o último relatório do INDEC, referente ao terceiro trimestre de 2025,o estoque de dinheiro fora do sistema ultrapassou os USD 279.476 milhões. Mesmo com a promulgação da Lei da Inocência Fiscal, que favorece a entrada de dólares no sistema formal, a informalidade continua sendo o principal refúgio diante das oscilações da economia. Trata-se de um reflexo histórico que se justifica pela desconfiança generalizada na moeda local, mas que evidencia uma notória falta de perspectiva histórica internacional.

É verdade que, inevitavelmente,o dólar acaba se impondo em relação ao peso. Mas também é verdade que essa força é relativa e que a moeda norte-americana não está imune aos impactos da economia global. Basta um exemplo básico para ilustrar essa situação: em 1964, US$ 20.000 eram suficientes para comprar uma casa de tamanho médio nosEUA; no ano 2.000, esse valor subiu para US$ 120.000; e, atualmente, um comprador precisa de US$ 400.000 para adquirir um imóvel semelhante.

De acordo com o IPC do Bureau of Labor Statistics,o poder de compra do dólar diminuiu aproximadamente 83% entre 1975 e 2025. Por sua vez, o Índice DXY, indicador financeiro que mede o valor do dólar em relação a outras seis moedas, caiu cerca de 10% no primeiro semestre de 2025, o que representou seu pior desempenho em um período de 50 anos. O contexto internacional marcado pelo conflito também não permite prever estabilidade no futuro próximo, e até mesmo consultorias como o Morgan Stanley previram um ano de 2026 com maior volatilidade para a moeda norte-americana.

Paradoxalmente,são os poupadores estrangeiros que mais sofrem com essa situação. Sem acesso aos estímulos fiscais nem aos programas sociais financiados pela emissão do FED, e sem possibilidade de obter crédito barato em dólares. Conforme indica o Efeito Cantillon, a ampliação da base monetária enriquece aqueles que estão mais próximos da criação de dinheiro e empobrece aqueles que estão mais distantes. Os pequenos e médios poupadores representam o último elo dessa cadeia monetária.

Os dólares guardados debaixo do colchão não fazem senão perder valor ano após ano, independentemente da relação conjuntural ou histórica que tenham com o peso. Os dados mostram que o dólar guardado é um dólar ocioso e, portanto, representa perda de capital. A geração de rendimentos é o único método comprovado para contornar a desvalorização do dinheiro e, para gerá-los, é preciso despertar a poupança e colocá-la para trabalhar.

Ao contrário do que sugere certo senso comum, fruto de uma falta de educação financeira, investir não é um risco, mas sim uma ferramenta de proteção. Vale ressaltar que investimento não é necessariamente sinônimo do mercado de ações. Como demonstra o exemplo do imóvel,existem ativos que funcionam como garantia sem se expor ao ritmo frenético da bolsa.

 

Para citar um exemplo, os armazéns que, há 25 anos, valiam US$ 5 milhões, hoje valem cerca de US$ 20 milhões. Quem investiu nesse setor lucrou e evitou riscos, já que eles fazem parte de um setor de consumo de massa nos EUA, com valores transparentes e um mercado de dimensões enormes.

O dólar ainda é a moeda predominante no mundo, mas não representa uma garantia por si só: esse é o ponto-chave que os poupadores devem ter em mente. Quem compreender isso terá melhores ferramentas para lidar com a volatilidade. Quem não compreender corre o risco de ficar preso em uma dinâmica semelhante ao mito de Sísifo, condenado a empurrar eternamente uma rocha morro acima, apenas para vê-la cair repetidas vezes.